Biosofia nº 47

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Editorial

JOVENS

Evidentemente, não há nenhum bloco monolítico a que se possa chamar “jovens” ou “juventude”. Para dizer a verdade, sempre considerei essa generalização simplista como algo irritante, e nunca me senti muito incluído no conceito, mesmo quando etariamente era nele abrangido.

No entanto, usemos agora a generalização, ainda que limitando-a aos países ditos “desenvolvidos” (sob critérios muito discutíveis, diga-se) e aos meios mais urbanos.

A condição envolvente desses “jovens” parece-nos demasiado pesada e deprimente. As obrigações escolares que recaem sobre eles representam uma carga violentíssima, escusada e absurda. A competição inicia-se cada vez mais cedo e é cada vez mais implacável: pelo acesso a instituições superiores de ensino, pelo acesso a empregos (num quadro de endeusamento do trabalho: quem não tiver um emprego não presta) e correspondentes remunerações, pela dura sobrevivência numa rede de deveres e exigências funcionais, tudo em nome do brilho falaz da produção e da competência. Alguns dos jovens aderem-lhe convictamente e tornam-se competidores ferozes e máquinas de estudo (forçado) e de trabalho restrito aos temas do sucesso profissional e brilho mundano; outros parecem já ter nascido velhos, de tão amorfos e conformados; outros tentam mas são derrotados e afundam-se em depressão e negativismo; outros, enfim, rebelam-se, e ficam em zonas de marginalidade relativamente autocontrolada, tendente a modos de vida alternativo:
Estão sobrecarregados de obrigações escolares, profissionais e sociais (incluindo modas e todo o tipo de papeladas, formulários e declarações) que, na maior parte dos casos, absorveram ao ponto de não se darem conta disso, a não ser indirectamente, através de um sentimento de mal-estar e de revolta sem saber bem porquê. Não obstante, paradoxalmente, esqueceram-se deveres importantes, de convivência e genuíno respeito, que em alguns pontos já conheceram melhores dias; paradoxalmente, ainda, acena-se-lhes com uma listagem interminável de direitos, vazios de conteúdo na prática, ou conducentes a uma arrogância e a um autoconvencimento sem sentido. Em resumo: uma teoria de direitos e uma prática de deveres que só podem conduzir a um sentimento de sobranceria, de esmagamento ou de rebelião.

Entretanto, quando essa revolta é lúcida e autocontrolada, quando para além de se reconhecer o que se não quer, também se está disposto a construir, então, há raios de esperança em algo diferente e melhor.

Por exemplo, o desejo de regresso a um modo de vida simples e natural, que alguns jovens (e não jovens), em número já significativo, vêm sentindo e até posto em prática, é uma tendência positiva. Como em quase tudo neste mundo, haverá nisso contradições. Sem dúvida, envolvem algumas meras formas de escape autocentrado, algum simplismo (diferente de simplicidade), algumas dormências em vez de abertura de consciência, algum isolacionismo mesmo. Muitas dessas comunidades, na prática, dissolver-se-ão em conflitos internos, como sempre acontece. Apesar disso, há generosidades, boas ideias, verdadeiros ideais de mudança, experiências significativas e bem-sucedidas. Abençoada é a possibilidade de contemplar o céu (que sinaliza o infinitamente grande) ou a planta que acaba de brotar da semente na terra (despontando do infinitamente pequeno, que é igual ao infinitamente pequeno).

Queremos com isto incentivar os jovens (e não jovens) a ir viver em comunidades? Não. Em alguns casos será bom que vão? Muito provavelmente. Em muitos outros não seria bom? Provavelmente também. Pode ter-se uma cabeça complicativa e cheia de caprichos numa comunidade pequena e em si mesma simples; pode ter-se uma vida frugal, autêntica e singela num meio circundante complexo.

Em última instância, é o nosso mental, e o que fazemos com ele, que determina o essencial.

Uma das motivações para essa renúncia à civilização (?) contemporânea é o cansaço mental que afecta e massacra muita gente.

Consideramos normal, lógico e justificado que assim seja. Somos assoberbados – às vezes esmagados – por uma quantidade excessiva de estímulos e de exigências a esse nível. Não obstante, o conhecimento essencial (das coisas que realmente importam) e naturalmente digerido (isto é, não decorado como obrigação ou adorno externo) continua a ser necessário. Precisamos sempre de saber distinguir e escolher com nitidez e clareza – o que não é fácil. A nosso ver, também, precisamos de ter uma compreensão perspectiva, global, ampla. De outro modo, continuaremos a correr inutilmente atrás de soluções para os efeitos (de sofrimento ou insatisfação), sem jamais vislumbrarmos as causas e irmos à raiz das questões, onde as verdadeiras soluções podem ser colhidas.

Para além de tudo, que exista coragem e vontade séria de mudança! Que se pense no bem de tudo e de todos! Que um mundo melhor nasça nos corações!

José Manuel Anacleto
Presidente do Centro Lusitano de Unificação Cultural