Biosofia nº 44

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Editorial

O VALOR DA OPOSIÇÃO

A vida é feita de contrastes e obstáculos. Parte deles, no imediato desagradáveis, têm utilidade imprescindível na dialéctica da evolução.

Expansão e contracção – como se vê a Árvore da Vida pela oposição entre as Colunas da Misericórdia e da Severidade –, como expiração e inspiração, fluxo e refluxo, atracção e repulsão, estão inscritas na ordem da Natureza. Expansão e facilidades ilimitadas, neste sentido, seriam tão impossíveis como uma expiração infinita. E o oposto é igualmente verdade. Em algumas abordagens, falou-se na mão direita e na mão esquerda da Divindade.

Qualquer hábito ou forma de pensamento, atingido o seu ponto de máxima expansão, tende a exaurir-se, levando a um esvaimento de consciência, se não se lhe opuser uma resistência ou concepção de sinal contrário. Hegel estava certo na sua formulação trifásica de tese-antítese-síntese.

Muitos de nós teremos hoje que viver isto mais ao nível psicológico que físico. A dor e a miséria física poderão, desejavelmente, ser eliminadas. Também a recta conduta, em obediência às leis e aos ritmos naturais, anulará boa parte do sofrimento moral. No entanto, a estagnação e a unilateralidade são letais. Precisamos sempre de nos contrastar com outras maneiras de ver e existir. “As mentes mais nobres admitem, apreciam e aproveitam as dúvidas, quanto mais não seja para obterem compreensões mais perfeitas e mais sintéticas”, como se escreveu num antigo livro do Centro Lusitano de Unificação Cultural.

As guerras e perseguições religiosas são algo de tremendamente deplorável: o ecumenismo amplo e um convívio pacífico e dialogante são altamente elogiáveis. Isso, porém, não deve significar um unanimismo acéfalo e irreflectido, um “bonzismo” sem substância, um transformar simplista, nas asas do populismo e da conveniência momentânea, de concepções mantidas por séculos ou milénios.

Podiam estas ser erradas, e em muitos pontos o eram brutalmente (caso, por exemplo próximo, da Igreja Católica), e a mudança ser para melhor e deveras louvável; todavia, qual a confiança que propicia alterações súbitas, sem explicação ou fundamentação dessas alterações? E serão os… recém-convertidos a boas ideias ou boas práticas dignos da mesma credibilidade que aqueles que as afirmavam muito, muito antes, arrostando até com os vitupérios e perseguições dos novos campeões?

Pensamos, deste modo, que os melhores instrutores são os que facultam e valoram distintos pontos de vista, até aparentemente contraditórios, ou mesmos opostos aos seus, porque não têm receio das comparações e da busca incessante e nunca terminada da verdade, e porque sabem que tal contraste é enriquecedor e potenciador da consciência.

A Espiritualidade também requer maturidade. Quem conhece uma ou duas coisas, da moda ou do acaso, e nelas se concentra superficialmente, não faz bem em pensar “eu sei!”, “eu sei!”, “eu sei!”. Pense-se antes: há muito que não sei e poderei vir saber, com utilidade para todos.

José Manuel Anacleto
Presidente do Centro Lusitano de Unificação Cultural